Suplementos estimulantes, anabolizantes e terapias hormonais sem orientação médica tem se tornado cada vez mais comum em academias e entre jovens adultos. Dados epidemiológicos levantados pela revista Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders apontam que cerca de 6,4% dos homens brasileiros já utilizaram substâncias anabolizantes, e esse número pode ser ainda maior entre frequentadores assíduos de ambientes de musculação.
Essas substâncias não são isentas de efeitos colaterais, e a ciência agora traça um retrato mais claro dos riscos cardiovasculares associados ao uso indiscriminado.
Para o cardiologista Dr. Victor Duque Estrada Zeitune, especialista em Cardiologia Clínica com atuação em gestão de saúde, a ocorrência desses riscos não está apenas nos extremos de uso intenso, mas na falta de conhecimento sobre as consequências metabólicas e cardíacas. “O coração está diretamente exposto às alterações que essas substâncias provocam no organismo. Quando o uso foge de qualquer critério médico, o risco à saúde cardíaca pode ultrapassar qualquer ganho estético ou de performance”, alerta.
Estudos mostram risco real de doenças cardíacas
Uma das pesquisas mais robustas sobre o tema foi publicada no periódico Circulation, que analisou mais de 1.189 homens que usaram esteroides anabolizantes androgênicos entre 2006 e 2018, comparando-os com quase 60 mil homens da população geral. O estudo identificou que o uso dessas substâncias foi associado a três vezes maior risco de infarto agudo do miocárdio, além de elevação da incidência de arritmias, tromboembolismo venoso e insuficiência cardíaca em relação ao grupo controle.
Os autores também observaram uma associação entre uso dessas drogas e cardiomiopatia, uma alteração grave no músculo do coração, cuja probabilidade foi cerca de nove vezes maior entre os usuários de anabolizantes.
Esses riscos estão ligados, em parte, à alteração do perfil lipídico e metabólico: evidências revisadas pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia mostram que o uso prolongado de esteróides anabolizantes está associado à redução do colesterol HDL (o “bom” colesterol), aumento do LDL (“ruim”), resistência à insulina e acúmulo de gordura visceral, um conjunto de alterações que compõe a síndrome metabólica e está diretamente relacionado ao infarto e ao AVC.
Suplementos estimulantes e alterações hemodinâmicas
Além dos esteróides, outros produtos usados no contexto de desempenho físico, como pré-treinos com altas concentrações de cafeína, taurina e outros estimulantes, também impactam o sistema cardiovascular. Estudos clínicos demonstram que esses compostos podem elevar a pressão arterial e a frequência cardíaca de forma abrupta, aumentando o risco de arritmias, especialmente quando combinados com exercício intenso e desprotegido. A hipertensão, por si só, é um dos maiores fatores de risco para doenças cardíacas.
Testosterona fora do contexto médico traz efeitos variáveis
Apesar de a terapia de reposição de testosterona quando indicada para deficiência hormonal sob supervisão médica não mostrar aumento consistente de eventos cardíacos em alguns ensaios clínicos, outras análises apontam aumento de riscos específicos. Um estudo clínico randomizado avaliou homens de 45 a 80 anos em tratamento com gel de testosterona, em comparação com placebo, e encontrou maior incidência de arritmias não fatais (5,2% vs. 3,0%) e fibrilação atrial (3,5% vs. 2,4%) em quem recebeu testosterona durante 21 meses.
Esse tipo de achado reforça que mesmo em contextos médicos o uso de testosterona exige avaliação cuidadosa de risco-benefício e monitoramento cardíaco contínuo, e que extrapolar isso para populações jovens e saudáveis sem indicação é ainda mais problemático.
“A reposição hormonal tem indicações específicas e critérios diagnósticos. Fora dessas condições, o risco cardiovascular pode superar qualquer benefício percebido”, afirma o médico.
Riscos silenciosos que podem evoluir
Uma das maiores dificuldades no acompanhamento de quem usa essas substâncias de forma inadequada é que muitos dos efeitos iniciais são assintomáticos ou pouco percebidos no início. Alterações no colesterol, elevação da pressão arterial, aumento do músculo cardíaco e distúrbios do ritmo podem progredir de forma silenciosa por meses ou anos antes de culminarem em sintomas mais claros, como dor no peito, falta de ar ou desmaios.
Para Dr. Zeitune, esse cenário exige atenção e informação: “O maior perigo não é apenas o efeito imediato, mas a sequência de alterações que se acumulam no organismo e que podem levar a eventos cardiovasculares graves sem aviso prévio”, explica.
Jovens e aparência: risco imediato
Os dados revelam um padrão preocupante: muitos dos que recorrem a esteroides e terapias hormonais fora de critérios médicos têm menos de 40 anos, acreditando estar reduzindo o tempo para atingir objetivos de estética ou performance. No entanto, a literatura científica mostra que o risco de infarto não está restrito ao envelhecimento, mas pode ocorrer precocemente em usuários crônicos dessas substâncias, incluindo quadros de arritmias perigosas e insuficiência cardíaca.
Orientação médica como prioridade
A prescrição de hormônios e o uso de suplementos devem sempre ser feitos com avaliação médica criteriosa, exames laboratoriais e acompanhamento regular de parâmetros cardiovasculares. Protocolos clínicos recomendam monitoramento de pressão arterial, colesterol, função hepática e a eletrocardiografia em pessoas em uso de qualquer substância com potencial impacto no sistema cardiovascular.
“Buscar ganhos rápidos pode custar a saúde do coração. O acompanhamento médico não é uma formalidade, é o que garante que intervenções que alteram o metabolismo sejam feitas com segurança e com base em evidências”, conclui o cardiologista.
