Médico e gestor em saúde defende ampliação da prevenção e a atenção primária para reduzir custos, salvar vidas e promover um sistema de saúde mais sustentável.
Um relatório da Organização Mundial da Saúde indica que, se países de baixa e média renda investirem apenas US$ 1 por pessoa por ano em prevenção de doenças crônicas, como diabetes e doenças cardíacas, cerca de 7 milhões de mortes poderiam ser evitadas até 2030 e os gastos com tratamento poderiam se reduzir substancialmente ao longo da próxima década.
No Brasil, lacunas na atenção primária também têm impacto direto nos custos e nos desfechos de saúde. Pesquisa recente mostra que, em 2024, mais de 1,6 milhão de internações no SUS foram atribuídas a falhas na atenção primária à saúde, com uma pessoa internada a cada três minutos por condições que poderiam ser tratadas ou controladas anteriormente.
O médico e gestor em saúde Hans Dohmann avalia que o foco dominante no tratamento tardio de doenças agrava a pressão financeira sobre o sistema e limita a capacidade de salvar vidas. Nesse cenário, ele defende maior ênfase em prevenção e atenção primária. “Tratar doenças custa caro. A prevenção é a única saída viável para garantir um sistema de saúde sustentável e capaz de salvar mais vidas”, afirma.
Prevenção versus tratamento
As doenças crônicas não transmissíveis, como cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças respiratórias, são responsáveis por grande parte da morbidade e mortalidade global. Estimativas da Organização Pan-Americana da Saúde sugerem que sem intervenções efetivas, os custos associados a essas doenças podem representar até 4% do PIB regional até 2050, devido à perda de produtividade e ao aumento dos gastos com saúde.
No Brasil, a disparidade entre o custo de diagnóstico precoce e tratamento tardio também é observada em oncologia. Dados de análises setoriais indicam que o SUS gastou mais de R$ 3,8 bilhões no tratamento do câncer em 2022, parte dos quais poderia ser economizada com detecção e intervenções iniciais mais eficazes, quando os tratamentos são menos complexos e mais baratos.
Atenção primária e redução de internações
A atenção primária é reconhecida como o principal eixo operacional da prevenção no sistema de saúde, responsável pelo primeiro contato com os usuários, diagnóstico inicial e acompanhamento ao longo do tempo.
A elevada taxa de internações por condições sensíveis à atenção primária, cerca de 793,8 por 100 mil habitantes em 2024, evidencia lacunas nesse nível de cuidado e aponta para oportunidades de ganho em eficiência e saúde populacional.
Dohmann destaca que uma atenção primária fortalecida, com monitoramento contínuo da população e uso de dados integrados, pode antecipar o tratamento necessário, reduzir evoluções graves de doenças e, consequentemente, diminuir a necessidade de internações hospitalares.
Desafios e caminhos futuros
A ampliação da atenção primária e integração das ações preventivas com políticas públicas mais amplas são estratégias centrais para enfrentar o crescente peso das doenças crônicas. A OMS e a OPAS têm proposto planos de ação regionais que enfatizam a necessidade de reduzir fatores de risco e integrar o manejo das doenças crônicas no cuidado primário.
Na visão do gestor, a transição para um modelo centrado na prevenção depende de mudanças estruturais no sistema de saúde. Ele ressalta a importância da saúde digital como ferramenta para monitorar indicadores populacionais e apoiar decisões clínicas e de gestão. “Combinar tecnologia com prevenção não apenas reduz custos, mas melhora indicadores de saúde de forma sustentável”, afirma.
Prevenção: retorno econômico e social
Além de aliviar pressões financeiras sobre os sistemas de saúde, a prevenção tem impacto social amplo, ao reduzir incapacidades, melhorar a qualidade de vida e evitar perda de produtividade. Estudos internacionais sobre doenças crônicas indicam que políticas de promoção de hábitos saudáveis e redução de fatores de risco podem gerar retornos significativos de saúde pública e econômicos ao longo do tempo.
Sobre Hans Dohmann

Hans Dohmann é médico, mestre em Cardiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou de pesquisas em células-tronco em parceria com o Texas Heart Institute. Foi secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro entre 2009 e 2014 e tem atuação voltada à gestão populacional e à saúde digital no setor privado. Atualmente, é diretor médico da Stone e responsável pelo Hospital Virtual Verde.
