Tarifas dos EUA ampliam desafios para indústria brasileira e preocupam municípios exportadores
Economia

Tarifas dos EUA ampliam desafios para indústria brasileira e preocupam municípios exportadores

As mudanças na política comercial dos Estados Unidos seguem produzindo efeitos sobre diferentes segmentos da indústria brasileira e chamam a atenção de municípios que dependem da atividade exportadora para movimentar a economia local. Com tarifas aplicadas a diversos produtos brasileiros desde 2025, empresas continuam avaliando os impactos das medidas e reforçam estratégias para ampliar a presença em outros mercados internacionais.

A expectativa do setor produtivo é reduzir a dependência do mercado norte-americano sem perder competitividade. Enquanto isso, entidades industriais acompanham novas decisões do governo dos Estados Unidos, que poderão ampliar as restrições comerciais sobre produtos brasileiros.

As primeiras tarifas entraram em vigor em abril de 2025, quando o governo norte-americano estabeleceu uma cobrança mínima de 10% sobre produtos brasileiros com base na International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). Alguns meses depois, foi anunciada uma sobretaxa adicional de 40% para parte das exportações.

Em fevereiro deste ano, a Suprema Corte dos Estados Unidos invalidou as tarifas sustentadas pela IEEPA. Apesar disso, setores como aço e alumínio permaneceram submetidos a outras regras tarifárias, mantendo um ambiente de incerteza para diversas cadeias produtivas.

Indústria busca alternativas para preservar exportações

Entre os segmentos mais afetados está a siderurgia. Desde junho de 2025, produtos de aço e alumínio passaram a pagar uma tarifa de 50% baseada na Seção 232 da legislação norte-americana, utilizada em situações relacionadas à segurança nacional.

Segundo dados da ApexBrasil, as exportações brasileiras de aço para os Estados Unidos somaram US$ 3,8 bilhões em 2023. Em 2024, o valor caiu para US$ 2,8 bilhões e, no ano seguinte, atingiu US$ 2,6 bilhões. Entre janeiro e maio de 2026, as vendas chegaram a US$ 977,7 milhões.

O Brasil permanece entre os principais fornecedores de aço ao mercado norte-americano, especialmente de produtos primários, categoria que acaba sendo mais vulnerável às medidas tarifárias.

“A expectativa é ser incluído na lista de isenções”, diz Fausto Cançado, presidente do Sindifer (Sindicato das Indústrias do Ferro) de Minas Gerais.

De acordo com estimativa preliminar da entidade, cerca de 55% das fábricas brasileiras de ferro-gusa poderão interromper parcial ou totalmente suas atividades caso novas tarifas sejam confirmadas.

O setor de máquinas e equipamentos também registrou mudanças. A Abimaq informou redução de 9,1% nas exportações destinadas aos Estados Unidos, mas destacou crescimento das vendas para Argentina, Singapura, Peru e Chile.

Segundo a associação, esse desempenho está relacionado não apenas às tarifas, mas também ao fortalecimento econômico desses mercados e a mudanças nas cadeias globais de abastecimento. Ainda assim, a entidade ressalta que o setor trabalha com contratos de longo prazo, dificultando a substituição rápida dos destinos das exportações.

Diversificação reduz riscos para empresas e regiões produtoras

Outros segmentos seguem ampliando mercados como forma de reduzir a exposição às decisões comerciais dos Estados Unidos.

A indústria do couro registrou queda de 14,5% nas exportações para o mercado norte-americano entre 2024 e 2025. Em contrapartida, empresas ampliaram negócios com Coreia do Sul, Espanha e México.

No setor calçadista, as vendas aos Estados Unidos apresentaram pequena redução. Ao mesmo tempo, a Abicalçados informou crescimento das exportações destinadas a países da América Latina.

“Não existe a possibilidade de redirecionamento das mercadorias exportadas para os Estados Unidos, pois, em sua grande maioria, são calçados desenvolvidos de acordo com a demanda daquele mercado”, diz nota assinada pelo presidente executivo da entidade, Haroldo Ferreira.

A indústria moveleira também intensificou sua estratégia de diversificação. Depois de registrar crescimento das exportações aos Estados Unidos em 2024, o setor encerrou 2025 com retração de 3,6%. Apesar disso, aproximadamente um terço das exportações brasileiras de móveis continua direcionado ao mercado norte-americano.

Segundo a Abimóvel, empresas ampliaram sua atuação em países como Uruguai, Argentina, Paraguai, Peru e Colômbia. A entidade também informa que o setor vem investindo na abertura de novos mercados na América Latina, Ásia e Oriente Médio.

“Não queremos abandonar mercados já consolidados, mas sim ampliá-los, ao mesmo tempo que abrimos novas frentes reduzindo riscos e dando maior estabilidade à internacionalização da indústria brasileira”, disse a Abimóvel em nota.

Na indústria têxtil, as exportações passaram de US$ 42,9 milhões no primeiro semestre de 2025 para US$ 37,8 milhões no mesmo período de 2026. Segundo a Abit, Paraguai, Uruguai e Equador ampliaram as compras de produtos brasileiros ao longo deste ano.

Já a indústria de madeira continua enfrentando um cenário mais delicado. Aproximadamente metade das exportações brasileiras de molduras de madeira tem como destino os Estados Unidos, o que limita alternativas de curto prazo para o setor.

“Nós não temos um plano B, por ter essa distribuição bem consolidada ao redor do mundo da produção brasileira”, diz Paulo Pupo, superintendente da Abimci.

Para os municípios que concentram polos industriais e empresas exportadoras, o cenário exige acompanhamento constante. Alterações no comércio internacional podem influenciar diretamente a atividade econômica local, afetando investimentos privados, geração de empregos, arrecadação e o ritmo de desenvolvimento regional. Nesse contexto, iniciativas voltadas à diversificação de mercados tornam-se relevantes não apenas para as empresas, mas também para a sustentabilidade econômica das cidades brasileiras.

Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/navio-porta-contentores-de-carga-e-descarga-no-porto-de-alto-mar-ao-por-do-sol-vista-aerea-da-importacao-e-exportacao-logistica-de-negocios_5499273.htm

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