As condições relacionadas à saúde mental e aos distúrbios cerebrais já representam um custo anual estimado em US$ 5 trilhões para a economia global. Sem ações efetivas de prevenção e cuidado, esse valor poderá ultrapassar US$ 16 trilhões até 2030, segundo dados do estudo Creating Workplace Environments that Support Brain Health (“Criando ambientes de trabalho que apoiam a saúde cerebral”).
A pesquisa foi desenvolvida pela Sodexo em parceria com a Social Impact Partners e a Global Brain Health Initiative. O levantamento analisa os impactos econômicos dos transtornos mentais e apresenta evidências sobre o papel do ambiente de trabalho na promoção da saúde cerebral.
Entre os números apresentados, depressão e ansiedade aparecem como fatores de grande peso para a economia. Juntas, as duas condições são responsáveis por perdas anuais de aproximadamente US$ 1 trilhão em produtividade e pela eliminação de 12 bilhões de dias de trabalho todos os anos.
O estudo também destaca os efeitos da falta de engajamento profissional. De acordo com os dados reunidos, trabalhadores desengajados geram prejuízos estimados em US$ 8,8 trilhões por ano, valor equivalente a cerca de 9% do Produto Interno Bruto global.
Em decorrência da crise econômica acentuada pela pandemia do novo coronavírus, Ricardo Knoepfelmacher, CEO e sócio da RK Partners, projeta que aproximadamente 500 grandes companhias no Brasil precisarão renegociar suas dívidas.
Ambiente corporativo ganha protagonismo
Os pesquisadores apontam que as empresas ocupam uma posição estratégica na tentativa de reverter esse cenário. Isso ocorre porque grande parte da vida adulta é vivida dentro do ambiente profissional.
Segundo o relatório, uma pessoa passa, em média, cerca de 90 mil horas trabalhando ao longo da vida. Esse volume de tempo transforma o local de trabalho em um espaço decisivo para a promoção do bem-estar emocional, da saúde cognitiva e da prevenção de transtornos mentais.
Para especialistas envolvidos no debate, o cuidado com a saúde mental precisa deixar de ser tratado como uma ação pontual e passar a integrar a cultura organizacional de forma permanente.
“A forma como o trabalho é organizado, como as lideranças se relacionam e como as pessoas descansam e convivem influenciam diretamente na saúde mental. O cuidado precisa estar incorporado ao dia a dia”, afirma Ana Menegotto, vice-presidente de pessoas, comunicação e ESG da Sodexo Brasil.
A executiva ressalta ainda que a segurança psicológica não deve ser vista apenas como um benefício oferecido aos colaboradores. Na avaliação dela, o conceito está diretamente ligado à estrutura do ambiente de trabalho e à maneira como a organização constrói suas relações internas.
Mudanças na NR-1 ampliam responsabilidade das empresas
A discussão sobre saúde mental no ambiente corporativo ganhou novo impulso com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em maio.
Com as mudanças, as empresas passaram a ter responsabilidades ampliadas na identificação e gestão de riscos psicossociais que possam afetar a saúde dos trabalhadores. O tema passou a integrar de forma mais explícita as exigências relacionadas à segurança e à saúde ocupacional.
Nesse contexto, cresce a necessidade de adoção de medidas preventivas capazes de reduzir fatores de estresse, sobrecarga emocional e outras condições associadas ao adoecimento mental.
Fatores que influenciam a saúde cerebral
O estudo propõe uma abordagem ampla para a promoção da saúde mental. Entre os aspectos considerados fundamentais estão alimentação equilibrada, qualidade do sono, prática de atividade física, ambiente físico adequado, conexões sociais, senso de propósito, controle do estresse, desenvolvimento cognitivo e acompanhamento preventivo.
Os autores reuniram evidências científicas que associam esses fatores à melhoria da capacidade cognitiva, da adaptação a desafios e do desempenho profissional.
O ambiente físico aparece como um dos elementos mais relevantes. O relatório destaca que iluminação natural, ventilação adequada, redução de ruídos, áreas de convivência e espaços destinados ao descanso contribuem para a redução do estresse e para o aumento da produtividade.
Um dos estudos citados na publicação identificou que profissionais que trabalham em edifícios com melhor ventilação e menores níveis de poluentes apresentaram desempenho até 61% superior em testes cognitivos.
As relações sociais também recebem destaque. Segundo os dados analisados, a solidão aumenta em 31% o risco de demência e está associada a índices mais elevados de ansiedade, depressão e esgotamento mental.
Investimento pode gerar retorno econômico
Além dos benefícios para os trabalhadores, o relatório aponta impactos positivos para as organizações e para a economia global. A estimativa é que iniciativas voltadas à saúde cerebral possam acrescentar US$ 6,2 trilhões ao PIB mundial até 2050.
Entre os efeitos esperados estão a redução dos afastamentos, o fortalecimento do engajamento dos profissionais e o aumento da produtividade.
Para os autores do estudo, o crescimento dos transtornos mentais exige uma mudança de perspectiva por parte das empresas. O tema deixa de ser apenas uma ação de responsabilidade social e passa a integrar a estratégia de sustentabilidade e desenvolvimento dos negócios.
Nesse cenário, o ambiente de trabalho pode assumir um papel de proteção à saúde mental, contribuindo para a construção de organizações mais resilientes e preparadas para os desafios das próximas décadas.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/retrato-de-uma-mulher-agarrando-a-cabeca-na-mesa-perto-do-laptop_1281135.htm
