Após registrar uma redução em 2024, Pernambuco voltou a apresentar alta nas mortes decorrentes de intervenções policiais. Dados divulgados nesta quarta-feira (1º) pela Rede de Observatórios da Segurança mostram que o estado contabilizou 89 mortes em 2025, número 30,9% superior ao registrado no ano anterior, quando ocorreram 68 casos.
As informações fazem parte da sétima edição do relatório Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã, elaborado com base em dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) junto aos órgãos de segurança pública de nove estados brasileiros.
Entre as vítimas registradas em Pernambuco, 84 eram pessoas negras, o equivalente a 94,4% do total. O percentual é o segundo mais elevado entre os estados analisados pelo estudo, ficando atrás apenas do Amazonas, onde pessoas negras representam 96% das mortes em ações policiais.
No cenário nacional, o levantamento identificou 4.330 mortes provocadas por intervenções policiais em 2025, crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior. Mais de 60% das vítimas eram jovens negros com até 29 anos. A Bahia concentrou o maior número de ocorrências, com 1.570 registros.
Série histórica aponta retomada da alta
O relatório acompanha os indicadores desde 2019 e revela que Pernambuco acumulou 657 mortes decorrentes de intervenções policiais ao longo de sete anos de monitoramento. No período, houve aumento de 20% no total de vítimas.
A sequência anual mostra oscilações, mas evidencia que a queda registrada em 2024 não se manteve em 2025.
Confira os dados divulgados pelo levantamento:
- 2019: 74 mortes, sendo 93,2% de vítimas negras;
- 2020: 113 mortes, com 97,3%;
- 2021: 105 mortes, com 96,2%;
- 2022: 91 mortes, com 89,6%;
- 2023: 117 mortes, com 95,7%;
- 2024: 68 mortes, com 92,6%;
- 2025: 89 mortes, com 94,4%.
O estudo também traça o perfil das vítimas. Cinco pessoas tinham até 17 anos. A maior concentração está entre jovens de 18 a 29 anos, faixa que reúne 59 mortes, o correspondente a 57,6% do total. Já as pessoas entre 30 e 39 anos somam 19 vítimas, representando 21,4% dos casos.
Outro dado destacado pelo relatório é a desigualdade racial. Embora pessoas negras correspondam a 65,3% da população pernambucana, elas respondem por 94,4% das mortes em intervenções policiais. Segundo os pesquisadores, esse grupo apresenta um risco 11 vezes maior de morrer em ações policiais do que pessoas de outros grupos raciais.
Gajop relaciona queda de 2024 à resposta após chacina
O Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), uma das organizações responsáveis pelo relatório, avalia que a redução observada em 2024 pode ter sido consequência da resposta institucional dada à chacina de Camaragibe, registrada em setembro de 2023.
O episódio começou após dois policiais militares morrerem em confronto com o vigilante Alex da Silva Barbosa. Depois da troca de tiros, policiais executaram cinco parentes do vigilante. Em seguida, Alex também foi morto. Uma jovem grávida baleada durante o confronto inicial chegou a ser socorrida, mas morreu mais de um mês depois. Atualmente, 12 policiais militares são réus por participação na chacina.
Para a coordenadora-executiva do Gajop, Edna Jatobá, a responsabilização dos envolvidos pode ter contribuído para reduzir episódios de uso excessivo da força.
“A investigação [da chacina] resultou não apenas no indiciamento dos policiais diretamente envolvidos, mas também da cadeia de comando responsável pela operação, sinalizando que graves violações de direitos humanos poderiam alcançar níveis superiores de responsabilização. Esse tipo de resposta fortalece a percepção de intolerância à impunidade e pode ter produzido um efeito dissuasório sobre intervenções policiais marcadas pelo uso excessivo da força”, afirmou Edna Jatobá.
Segundo ela, o crescimento registrado em 2025 indica que esse possível efeito não permaneceu de forma consistente.
“O crescimento de 30,9% das mortes decorrentes de intervenção policial em 2025 sugere que esse possível efeito de contenção não se consolidou como mudança estrutural. Ainda não há elementos suficientes para explicar de forma definitiva essa elevação, mas algumas hipóteses merecem ser consideradas”, disse.
Entre as hipóteses apresentadas pela coordenadora estão o aumento da presença ostensiva das forças policiais em razão da política de segurança adotada pelo estado, possíveis falhas na formação continuada e na fiscalização sobre o uso progressivo da força, a intensificação dos confrontos provocada pela reorganização de grupos criminosos armados e a pressão por resultados imediatos na segurança pública, o que pode favorecer operações com maior nível de confronto em vez de estratégias voltadas à preservação da vida.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/salvador-bahia-brasil-07-de-setembro-de-2022-guarda-municipal-participando-da-parada-da-independencia-do-brasil-na-cidade-de-salvador-bahia_67845904.htm
