O aumento do consumo de vinho no Brasil tem produzido efeitos que vão além das taças. O avanço da procura pela bebida estimula o comércio, fortalece pequenos negócios, amplia o fluxo de visitantes em regiões produtoras e contribui para o desenvolvimento econômico de municípios que investem na vitivinicultura e no enoturismo.
Dados apresentados na série especial “Cartas de Vinho”, exibida pela EPTV Sul de Minas, mostram que o consumo nacional superou 2,5 litros por habitante no último ano, crescimento superior a 40% em relação a 2024. O cenário acompanha a consolidação de Minas Gerais e São Paulo como importantes polos produtores, resultado da evolução técnica da vitivinicultura brasileira.
A reportagem destaca a contribuição da dupla poda, técnica que tornou possível realizar a colheita das uvas durante o inverno e ampliar a qualidade dos vinhos produzidos nessas regiões. O avanço também favoreceu a expansão do enoturismo, atividade que movimenta hotéis, restaurantes, comércio e serviços locais.
O reflexo desse crescimento aparece em empresas de diferentes portes.
Em Varginha, no Sul de Minas, uma distribuidora de bebidas informa que metade das entregas realizadas atualmente corresponde a vinhos. A empresa comercializa cerca de 800 garrafas por mês e oferece rótulos brasileiros, além de produtos importados do Chile, Argentina, Itália, Espanha, Uruguai e França.
O sócio-proprietário Jordane Soares Ramos explica que o aumento da procura motivou mudanças no negócio.
“Quando a gente começou com a loja era 100% cerveja. Aí com o passar do tempo que a gente foi vendo que o mercado de vinho, a procura dos clientes por vinho era bacana, a gente foi onde a gente aumentou o nosso leque, por isso a gente começou a trazer os vinhos”, disse.
Empreendimentos acompanham a expansão do mercado
O crescimento do interesse pela bebida também abriu espaço para novos investimentos. Em Campinas, o empresário César Moya iniciou a comercialização de vinhos dentro do próprio apartamento. Com o aumento das vendas, o negócio foi ampliado e atualmente conta com duas lojas.
“As caixas foram aumentando, aumentando. E a minha mulher falou, olha, ou os vinhos ou eu vão ter que sair daqui. E aí a gente resolveu, né? A gente achou um espaço num shoppingzinho que tem uma quadra para baixo da minha casa ali, e aí nós fomos para lá”, relembrou.
A maior unidade reúne aproximadamente 20 mil garrafas distribuídas em cerca de 750 rótulos. Outra loja funciona em um resort, ampliando o acesso dos visitantes aos produtos.
Segundo César, o mercado atende consumidores com diferentes perfis de renda.
“Aqui na loja a gente tem vinhos de 50 reais, mas tem vinhos de 6, 7 mil reais. E tem cliente para tudo.”
Além da comercialização, cresce a procura por informações sobre a bebida e pelas experiências oferecidas nas vinícolas.
O engenheiro de software Zinaldo Barros afirma que o contato com especialistas despertou o interesse em conhecer mais sobre o setor.
“Ele não me vendeu um vinho aqui, ele me vendeu uma experiência, uma aula de fato. Ele me explicou muito, eu já saí daqui pensando em visitar outras vinícolas”, contou.
O interesse por visitas às regiões produtoras reforça a importância do enoturismo como alternativa para diversificar a economia de municípios ligados à produção de vinhos.
Cultura do vinho impulsiona novos investimentos
A valorização da bebida também influencia projetos residenciais. A arquiteta Ramsine Kézia, especializada em imóveis de alto padrão, afirma que aproximadamente 90% dos projetos incluem espaços destinados ao armazenamento de vinhos.
As alternativas vão desde nichos planejados até adegas climatizadas e ambientes construídos especificamente para conservar as garrafas.
“Nós vamos ter primeiro a adega não climatizada, onde eu posso fazer na própria marcenaria um espaço para colocar as garrafas. Posso também comprar uma adega climatizada, menorzinha, para, sei lá, 12 garrafas. E um projeto onde você vai construir do zero uma adega, ele vai ter um custo maior, mas você vai precisar de mais espaço, né? Por exemplo, uns 4 metros quadrados é um espaço ótimo para se construir uma adega”, explicou.
Em Campinas, o empresário Marco Giampietri investiu aproximadamente R$ 70 mil em uma adega integrada ao apartamento, com capacidade para armazenar 350 garrafas.
“Primeiro que você consegue ver melhor os vinhos. Você vê aí o que você tem, onde está. Você traz uma pessoa de fora, você pode mostrar, entrar. Então aí nós resolvemos optar uma empresa aqui de Campinas que fez o projeto para a gente e fez ele harmonizado com o resto da decoração aqui e ficou muito legal”, afirmou.
Segundo ele, o espaço passou a receber amigos e familiares com frequência.
“Aí é legal para você trazer os amigos, como você falou, você tem vinho para as ocasiões, tem vinho para você trazer os amigos, para a família, para você tomar sozinho, só eu e a esposa.”
Na região metropolitana de Campinas, um grupo de dez amigos se reúne mensalmente há mais de duas décadas para degustar vinhos e compartilhar experiências.
“A regra basicamente é, todo mês nós temos, todo mês todos contribuem. Participando ou não daquele mês. E com essa verba, compram-se três vinhos. Isso desde o início”, explicou o conselheiro administrativo Waldomiro Bacari.
Os encontros incluem desafios para identificar a origem e as características dos rótulos degustados.
“É uma tarefa realmente muito difícil, porque engana muito. Porque aqui no Brasil nós tomamos vinho do mundo inteiro. Então, assim, pode ser qualquer coisa”, disse o analista de sistemas Edgard Soares.
O administrador Francisco Carlos Sanches apresentou um dos vinhos analisados pelo grupo.
“É um vinho tempranilho, 95% tempranilho e 5% garnátia. O ano é 2020 e ele tem 14,5 de graduação alcoólica.”
Ao longo dos anos, os participantes também realizaram viagens para vinícolas brasileiras e internacionais. Para o médico Admar Concon Filho, os vinhos produzidos no país conquistaram reconhecimento crescente.
“No Brasil, com essas vinícolas, tanto do Sul quanto da região aqui de São Paulo e Minas, que estão fazendo vinhos maravilhosos e merecem as nossas visitas, as nossas viagens.”
O médico Reinaldo Coimbra Martins resume que, além do vinho, os encontros consolidaram uma relação de amizade construída ao longo do tempo.
“O vinho foi o começo, foi a mola mestra, mas independente disso, a vontade de estar junto é independente do vinho”, resumiu.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/elegancia-vinho-tinto_166617461.htm
