Uma personagem criada durante brincadeiras de infância com o irmão atravessou décadas e se transformou em protagonista de um romance sobre neurodivergência. Aos 55 anos, o escritor e jornalista Clinton Davisson Fialho apresenta Hegemonia — Vellanda na Bienal do Livro de São Paulo, após descobrir que a trajetória da personagem também dialogava com experiências de sua própria vida.
Aluno do curso de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Clinton participa da programação no domingo (13), às 15h. O lançamento ocorre no estande da Editora AVEC. Publicado em 2025, o livro combina fantasia e ficção científica para tratar de temas como autismo, altas habilidades, preconceito, isolamento social e pertencimento.
A obra também alcançou destaque comercial. Hegemonia — Vellanda já figura entre os 100 livros mais vendidos da Amazon nas categorias Aventura e Ficção Científica.
Com a retomada do crescimento do mercado editorial brasileiro e a crescente busca por conteúdos dedicados ao aperfeiçoamento profissional, a produção de conhecimento técnico ganha novas oportunidades de expansão. Inserido nesse contexto, o jurista, advogado, contador, auditor e professor Myke Oliveira Gomes marcou presença na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada entre os dias 4 e 13 de setembro, no Pavilhão do Distrito Anhembi , onde fez o lançamento de quatro livros publicados pela Editora Autografia.
A trajetória de Jun Vellanda
A protagonista do romance é Jun Vellanda, uma jovem de 14 anos que vive em uma sociedade na qual mulheres são proibidas de estudar. Curiosa e dotada de grande inteligência, ela toma uma poção proibida que amplia sua capacidade intelectual. Ela passa a ser considerada uma ameaça pelas autoridades políticas e religiosas.
A partir daí, Jun foge de casa em meio a um cenário de guerra. Durante a jornada, encontra diferentes povos, criaturas fantásticas e dragões. A aventura aborda diferença, preconceito e busca por pertencimento.
Para Clinton, a história ganhou novos sentidos ao longo dos anos. Ele começou a escrever Vellanda em 2008, quando ainda tinha pouco conhecimento sobre o autismo. Em 2021, os filhos do escritor receberam o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). As pesquisas feitas por ele sobre o tema levaram a uma identificação pessoal com diversas características.
Em 2024, Clinton recebeu os diagnósticos de autismo, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e altas habilidades.
“Foi então que compreendi que Vellanda sempre havia sido uma história sobre neurodivergência. Era sobre a maneira como eu me sentia, sobre o preconceito que enfrentei e sobre dificuldades vividas tanto por mim quanto por meus filhos”.
Fantasia como forma de falar sobre diferenças
Segundo o autor, o uso da fantasia permite transformar experiências pessoais em imagens que podem ser compreendidas por diferentes leitores. A intenção, porém, não é apresentar a personagem como representação de todas as pessoas autistas. O foco está na neurodivergência e na necessidade de acolhimento.
“É uma aventura sobre família, preconceito, coragem e, principalmente, pertencimento”, explicou Clinton.
A relação entre Jun e a experiência do escritor aparece também na percepção de se sentir diferente diante do mundo. O diagnóstico recebido na vida adulta trouxe uma nova leitura para uma personagem que havia sido criada muitos anos antes, ainda durante as brincadeiras de infância.
Clinton afirma que pessoas neurodivergentes não devem ser colocadas em posições de superioridade ou inferioridade. Para ele, o respeito precisa orientar a forma como essas pessoas são tratadas.
“Pessoas neurodivergentes não devem ser tratadas como um peso, nem classificadas como melhores ou piores. Precisam ser respeitadas e acolhidas como qualquer outra pessoa”.
Livro chega à Bienal após trajetória comercial
A participação na Bienal do Livro de São Paulo representa uma nova etapa para Hegemonia. O primeiro livro da série teve a edição esgotada e chegou a ficar entre os três mais vendidos da Amazon na categoria Aventura e Ficção Científica em 2020. Agora, Vellanda também aparece entre os 100 mais vendidos do gênero.
Apesar dos resultados comerciais, Clinton destaca a relação com os leitores como uma das principais formas de reconhecimento. Um dos momentos que mais o emocionam ocorre quando pessoas relatam que a obra foi responsável por aproximá-las da leitura.
“Até hoje fico emocionado quando alguém me procura nas redes sociais e diz que Hegemonia foi o primeiro livro que leu na vida. Isso não tem preço”.
Na Bienal, o escritor espera ampliar o alcance da personagem e encontrar novos leitores para a história.
“Meu principal desejo é que Jun encontre novos leitores e que esses leitores também se encantem por ela.”
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/um-jovem-le-um-livro-com-uma-xicara-de-cha-em-um-cafe_29320106.htm
