Os sinais de fragilidade financeira no agronegócio brasileiro continuam se acumulando. Levantamento da Serasa Experian mostra que a população rural encerrou o quarto trimestre de 2025 com R$ 54 bilhões em dívidas negativadas, em um contexto marcado por crédito mais seletivo, custos de produção elevados e oscilações nos preços agrícolas.
O estudo revela que as instituições financeiras concentram a maior parte dos valores em atraso. Embora representem menos da metade das novas negativações registradas no período, os bancos respondem por 93,9% do montante total da inadimplência rural.
O cenário reforça uma preocupação que vem ganhando espaço no mercado financeiro desde 2023. A deterioração da capacidade de pagamento de parte dos produtores tem afetado instituições que possuem forte atuação no financiamento do setor, além de cooperativas e investidores ligados à cadeia agropecuária.
Depois de anos de expansão do crédito e crescimento da atividade, o campo passou a enfrentar um ambiente mais desafiador. A combinação entre custos elevados, rentabilidade pressionada e acesso mais restrito a financiamentos tem dificultado a recuperação financeira de diversos produtores.
De acordo com o economista Paulo Narcélio Simões Amaral, que possui mais de 30 anos de atuação em gestão e finanças, o mercado de combustíveis no Brasil vive um momento de transição regulatória.
Atrasos nos pagamentos mantêm tendência de crescimento
A taxa de inadimplência do agronegócio, que considera débitos com atraso superior a 180 dias, chegou a 8,2% no quarto trimestre de 2025. O índice ficou um ponto percentual acima do registrado no mesmo período do ano anterior.
Apesar da elevação, a velocidade do avanço perdeu intensidade nos últimos meses. Em relação ao trimestre anterior, a alta foi de 0,2 ponto percentual, indicando um crescimento mais moderado do indicador.
Segundo a Serasa Experian, o setor ainda convive com fatores que limitam a recuperação financeira dos produtores.
“Apesar de sinais de estabilização em alguns segmentos, a inadimplência no agronegócio segue em alta gradual, com produtores ainda enfrentando margens apertadas e fluxo de caixa pressionado, diante de custos elevados, preços voláteis e crédito mais seletivo”, afirma Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, em nota.
A análise por perfil mostra que os maiores índices de inadimplência foram registrados entre a população sem registro rural, com 9,9%, e os grandes produtores rurais, com 9,8%.
Os médios produtores apresentaram taxa de 8,3%, enquanto os pequenos registraram índice de 7,8%, demonstrando que as dificuldades financeiras atingem diferentes segmentos da atividade agropecuária.
Recuperação judicial avança em importantes polos agrícolas
O aumento dos pedidos de recuperação judicial tornou-se um dos principais reflexos da pressão financeira enfrentada no campo.
Em 2025, foram contabilizados 853 pedidos de recuperação judicial feitos por pessoas físicas ligadas ao agronegócio. O resultado representa crescimento de 51% em relação aos 566 casos registrados no ano anterior.
Os estados de Mato Grosso, Goiás e Paraná concentram mais da metade das solicitações. As três unidades da federação estão entre as maiores produtoras agrícolas do país e enfrentaram, nos últimos anos, desafios relacionados ao aumento do endividamento e à redução das margens de rentabilidade.
O crescimento dos pedidos indica que mais produtores estão recorrendo ao instrumento jurídico para reorganizar passivos e negociar compromissos financeiros diante das dificuldades para manter a liquidez das operações.
Crédito rural muda de direção
O ambiente de maior risco também provocou mudanças na oferta de financiamento para o setor.
De acordo com a Serasa Experian, a quantidade de novos contratos de crédito rural e agroindustrial caiu quase 4% na comparação com o ano anterior.
Além da redução no número de operações, os valores concedidos também diminuíram. O ticket médio por CPF recuou 21%, evidenciando a postura mais cautelosa adotada pelas instituições financeiras.
Ao mesmo tempo, produtores passaram a buscar linhas com prazos mais longos para aliviar a pressão sobre o fluxo de caixa. Os financiamentos com vencimento superior a dois anos avançaram 7,2%.
Já as operações de curto prazo, geralmente destinadas ao custeio das safras, apresentaram retração de 19,5%.
“O perfil do crédito rural, marcado por tickets mais altos, prazos mais longos e maior exposição financeira, faz com que poucos inadimplentes concentrem montantes expressivos de dívida, ampliando o risco mesmo em um cenário de taxa relativamente controlada”, diz Pimenta.
Score de crédito antecipa dificuldades
Outro dado monitorado pela Serasa Experian mostra que a qualidade de crédito da população rural apresentou piora ao longo de 2025.
O Agro Score médio caiu para 600 pontos, uma redução de 16 pontos em relação ao ano anterior. Segundo a empresa, a queda do indicador costuma ocorrer muito antes de uma eventual recuperação judicial.
O estudo aponta que produtores que posteriormente recorrem ao mecanismo judicial normalmente apresentam sinais de enfraquecimento do score até 18 meses antes do pedido formal.
Na análise regional, o Sul manteve os melhores resultados do país, com taxa de inadimplência de 5,7% e os indicadores de crédito mais favoráveis entre os produtores rurais.
Já a região Norte Agro apresentou o quadro mais delicado do levantamento. A taxa de inadimplência alcançou 12,9%, mais que o dobro da observada nos estados do Sul, evidenciando que os impactos da crise de crédito continuam sendo sentidos de forma desigual entre as diferentes regiões produtoras do Brasil.
Fonte: Seu Dinheiro
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/angulo-alto-de-tres-pilhas-de-moedas-na-grama-com-terra-e-plantas_11764445.htm
